Com os juros ainda altos e o orçamento mais apertado, muitos brasileiros estão retomando um velho conhecido do planejamento financeiro: o consórcio. A modalidade, que há anos se mantém estável, ganhou novo fôlego e passou a aparecer como alternativa de menor custo para quem quer adquirir um bem sem pressa. O reflexo disso é um movimento no mercado: de imóveis a automóveis, passando até por eletrônicos, o setor vem batendo recordes. Segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), entre janeiro e abril de 2025 foram vendidas 1,61 milhão de cotas, alta de 19,3% sobre o ano anterior, com um volume de negócios que ultrapassou R$ 141,19 bilhões, uma alta de 29,9% em relação ao mesmo período do ano passado.
A ideia de cooperativismo financeiro tem impulsionado os números do mercado. No Sicoob, que reúne mais de 6,4 milhões de cooperados, as vendas de consórcios cresceram 47% no primeiro semestre deste ano, frente aos seis primeiros meses do ano anterior. O volume contratado ultrapassou R$ 4 bilhões no período.
O destaque ficou com os consórcios de automóveis nacionais, que somaram mais de R$ 1,7 bilhão e lideraram a demanda dentro da cooperativa em âmbito nacional. Na sequência, vieram os consórcios imobiliários, que superaram R$ 1,5 bilhão. O tíquete médio das operações foi de R$ 97.470,31.
De acordo com Amanda Bedin, especialista de Negócios do Sicoob Paulista, que integra o Sicoob UniMais Rio, o crescimento é impulsionado por consumidores que desejam planejar, sem pressa, a compra de um imóvel, veículo ou até mesmo um serviço. O consórcio reúne grupos com o mesmo objetivo de formar um fundo comum para, mês a mês, distribuir cartas de crédito por sorteio ou lance. Cada grupo tem uma composição e regras próprias quanto a prazos e valores, mas todos seguem a mesma lógica cooperativa. “O consórcio é um projeto coletivo que ajuda o participante a se planejar e, ao mesmo tempo, evita o custo elevado que vemos hoje nos financiamentos tradicionais”, afirma Bedin.
A dinâmica é simples, mas exige atenção. Todos contribuem mensalmente para um fundo comum que financia as cartas de crédito que são liberadas por sorteio nas assembleias mensais ou pelo sistema de lances, em que o participante oferece um valor adicional para antecipar sua vez. “O lance pode ser livre, quando o consorciado usa recursos próprios, ou embutido, quando usa parte da própria carta de crédito”, explica a especialista.
Ao ser contemplado, o consorciado tem direito ao valor integral da carta para adquirir o bem ou serviço. O montante não é depositado na conta do participante: o pagamento é feito diretamente ao vendedor. “Essa é uma forma de evitar que o consorciado, por exemplo, utilize o valor para adquirir outro bem ou busque uma forma de rentabilidade, investindo aquele valor recebido”, explica Bedin.
A disciplina é essencial. Atrasos podem impedir temporariamente a participação do consorciado nas assembleias, e lances devem ser planejados com cautela para não comprometer o orçamento. Bedin ressalta que a modalidade não é indicada para quem tem urgência na aquisição de um bem, já que a contemplação depende de sorteio ou da competitividade dos lances.
Além do valor destinado ao fundo comum, a modalidade também inclui taxas. Há a taxa de administração, que remunera a gestão do grupo, e o fundo de reserva, destinado à proteção coletiva. “É um valor formado por pequenas contribuições mensais dos consorciados para dar segurança ao grupo em situações inesperadas, como inadimplência. Caso não seja utilizado, esse fundo pode ser devolvido proporcionalmente aos participantes ao final do grupo, conforme as regras previstas em contrato”, conclui.
Consórcio é para você? Veja o que considerar:
- Por que o consórcio tem ganhado espaço?
- Quem deve considerar um consórcio?
- Quais são os custos?
- O lance é obrigatório?
- Como evitar golpes?
Porque permite planejar a compra de um bem sem juros, com parcelas que cabem no orçamento e mais previsibilidade do que o financiamento tradicional.
Quem quer comprar imóveis, veículos ou serviços com planejamento, sem urgência e com possibilidade de usar a carta de crédito como pagamento à vista, o que facilita a negociação.
Taxa de administração, fundo de reserva e eventuais seguros. É importante checar todas as informações antes de assinar o contrato.
Não. Ele é apenas uma forma de antecipar o recebimento da carta. O ideal é que seja planejado para não comprometer o orçamento.
Contrate apenas administradoras autorizadas pelo Banco Central.